Natal é quando um homem quiser!

Quatro lugares à mesa, tudo pronto para a consoada, mas uma estranha sensação de vazio invade esta celebração. Natal é a festa da família e dos afetos. E quando a família não está completa? Como lidar com isso? Depois de um ano tão atípico, com todos os constrangimentos que a COVID-19 nos trouxe, o Natal de 2020 é, certamente, diferente e as famílias sentem-se obrigadas a estar mais afastadas do que nunca. 


A 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde dava conta de que mais de duas dezenas de casos de pneumonia de origem desconhecida tinham sido detetados na cidade chinesa de Wuhan, na província de Hubei. Tratava-se então de uma doença anónima e distante, que infetava e matava pessoas do outro lado do mundo. Um ano depois, à escala mundial, já morreram mais de um milhão de pessoas e ficaram infetadas mais de 55 milhões. O álcool gel e a máscara substituíram os beijos e os abraços.

Mas o Natal continua a ser tempo de dar, de receber, de distribuir sorrisos. É a época em que o amor parece renascer dos pequenos gestos, mas é por defeito a celebração em que as vulnerabilidades ganham mais significado e intensidade. Não é apenas uma questão de presença física, mas sim de ausência. Através da família desenvolvemos os primeiros laços com o mundo, recebemos os valores básicos e as atitudes que estruturam a nossa personalidade e alicerçaram o nosso compromisso com a vida. É na família que construímos a nossa identidade. Se a socialização é crucial para o ser humano, é uma questão de sobrevivência para a família.

Este ano, na noite de consoada, haverá lugares vazios em tantas mesas, uma saudade que ficou, um sentimento enorme daquilo que já foi, mas que continua a ocupar muito espaço dentro dos corações. Existirão memórias, umas doces, outras amargas, mas é Natal e tudo deveria transformar-se numa amena magia!

O pinheiro foi decorado, as figuras principais do presépio também marcam presença, mas a estrela não brilha como em outros natais. O novo coronavírus não tem contemplações, é implacável para os que se entregam aos afetos. Esta é uma realidade que não deixa dúvidas, nem espaço para grandes celebrações. Em 2020, muitas pessoas vão escolher passar o Natal longe do resto da família. Na base dessa decisão está um ato de amor e um sentido de proteção.

Continuo a acreditar que a melhor mensagem de Natal é aquela que sai em silêncio de dentro de nós e que aquece com ternura os corações daqueles que nos acompanham na nossa caminhada. Ouçamos o silêncio, mas é tão avassalador e cheio de interrogações! Valerá o esforço? Teremos outros natais? Nunca, como neste ano, vimos tão pouco os nossos pais e avós. Nunca, como neste ano, fomos tão privados dos afetos. Nunca, como neste ano, as celebrações familiares adotaram contornos tão severos.

No dia 2 de março foram confirmados os dois primeiros casos de Covid-19 em Portugal.
Os meses passaram e fomos sendo subjugados por um "novo normal". Portugal é dos poucos países em que a segunda vaga está a matar mais do que a primeira. Por detrás dos números estavam pessoas com rosto, com nome, com família. Quebraram-se os laços.  Quando se fala em mudanças, não poderemos enumerá-las. O mundo transformou-se drasticamente. 

A 8 de dezembro, Margareth Keenan, uma inglesa de 90 anos, foi a primeira pessoa a ser oficialmente vacinada com a vacina da BioNTech-Pfizer. A esta vacina juntaram-se outras de vários projetos e laboratórios.

A ciência e o trabalho perseverante de muitos investigadores espalhados pelo mundo são absolutamente extraordinários. Será este o princípio do fim? Finalmente, existe uma luz ao fundo do túnel, mas o caminho ainda é penoso. Vivem-se tempos contraditórios em que alguns ainda continuam a insistir que a Terra é plana. Os nossos comportamentos individuais continuarão a fazer diferença entre a vida e a morte, a nossa, a dos nossos e a dos outros. Acredito que iniciámos uma nova era, onde os sorrisos deixarão de ser opacos e passarão a ter cor.

Entretanto é Natal, celebremos a saúde e a vida! As saudades são exponenciais e ampliam a falta dos abraços, mas o mais importante será sempre celebrar mais um Natal e o amor que nos une. 

Termino evocando Ary dos Santos: 

«Natal é em dezembro
Mas em maio pode ser
Natal é em setembro
É quando um homem quiser…»

Feliz Natal!

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